Tempos de convergências

O debate sobre cidades inovadoras geralmente coloca ênfase exagerada na tecnologia e nos processos de inovação, esquecendo que o principal ativo de qualquer lugar é as pessoas. Não basta o uso massivo de tecnologias digitais. Para as cidades prosperarem, as pessoas devem refletir sobre as novas técnicas, aprender a criá-las em colaboração, sem jamais esquecer de que essas ferramentas são apenas parte, por vezes insignificantes, das soluções que irão transformar a sociedade.

É ilustrativo o caso do “Tá no Mapa”, no Rio de Janeiro. Os organizadores do projeto perceberam que muitas favelas não aparecem em mapas digitais, porque as companhias que os fazem não se arriscam a entrar em ambientes que consideram hostis.

Para acabar com essa “invisibilidade digital”, o AfroReggae primeiro conquistou a simpatia de moradores de comunidades como as de Parada de Lucas, Caju, Rocinha Vidigal, e depois mobilizou a população para colaborar no projeto de mapeamento digital dos diversos ambientes marginalizados no Rio.

A tecnologia para a criação da plataforma colaborativa era relativamente simples. Difícil estava conseguir o engajamento das pessoas – afinal elas teriam de gastar tempo e energia numa ideia que não tinham como saber se daria certo.

Os organizadores resolveram esse obstáculo de forma simples, ao estabelecer um propósito inspirador: “O muro que separa a favela da cidade também é digital. E esse muro o Afroreggae vai quebrar”, diz um dos vídeos sobre o projeto (http://www.tanomapa.org/).

Sem a vontade dos moradores em colocar as favelas no mundo digital, o projeto seria uma mera plataforma de boas intenções. A melhor tecnologia do mundo não faria a menor diferença se as pessoas não vissem um propósito e um sentido de utilidade no “Tá no Mapa”.

Existe hoje uma certa euforia por acelerar a criação de produtos, especialmente em eventos de prototipagem rápida, como os hackathons. As pessoas e seus anseios, porém, ficam relegadas a um segundo plano, como se fossem um subproduto da tecnologia.

Cidades inteligentes devem concentrar sua atenção sobre o desenvolvimento da potencialidade dos indivíduos em suas mais diferentes dimensões – intelectual, artística, cívica e emocional. Estimular a economia criativa. Induzir a colaboração. Fomentar a interação dos mais diversos campos do saber, para que ideias transitem de um campo a outro, gerando atritos e possibilitando a emergência do novo.

A inovação surge mais facilmente da aceitação da diferença, do respeitoso conflito entre diferentes posicionamentos, da tolerância a conceitos fora do comum – como dizia Salvador Dali, “tudo que é contraditório gera vida”.

Numa sociedade madura, os pontos de vista divergentes não são obstáculos. Ao serem compartilhados, por estranho que pareça, geram colaboração. E é aqui que o poder público assume um papel fundamental. A primeira tarefa de uma cidade inteligente é dizer qual é o propósito maior que a inspira.

Mas essa visão precisa ter lá seu tempero, como possui a visão do AfroReggae, em seu projeto para tirar as favelas do limbo digital.Se for genuína e conectada com os anseios locais, certamente será vencedora, porque irá alavancar a energia potencial latente na sociedade. Só depois que essa tarefa for realizada é que se deve empregar de forma obstinada toda a energia existente para construir o futuro maior que se propõe.

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